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Crime e Castigo e O bem e o mal na Psicologia Analítica

  • Foto do escritor: Bruna Monteiro
    Bruna Monteiro
  • 15 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 29 de jan.



No famoso romance de Dostoiévski, nos deparamos com a história de um jovem estudante universitário russo, no fim do século XIX, que em meio a dívidas, depressão e isolamento, decide cometer um crime. Raskolnikov é estudante de Direito e se sustenta com aulas particulares, além da pouca ajuda que a mãe consegue enviar. Sua irmã planeja casar-se apenas para garantir a segurança financeira dos três. Nesse contexto, ele se sente desmoralizado e um peso para a família.

    

Sem perspectivas, entra em um estado de melancolia: deixa de frequentar as aulas, abandona o trabalho, passa os dias deitado no escuro, em seu divã, no quarto de pensão. As contas se acumulam, mal se alimenta, vive em devaneio e isolamento. Um dia, ouve falar de uma velha que penhora objetos, descrita como avarenta, cruel, que maltrata a própria irmã e explora os necessitados sem piedade. A partir dessa conversa uma ideia se instala: assassiná-la e roubá-la.


Após certo impasse planeja o crime a sangue frio. Mas assim que o comete, não se reconhece em suas próprias ações e ‘enlouquece’. Esconde as joias debaixo de uma pedra e não as usa. Fica paranoico, tem desmaios, afasta-se ainda mais dos outros, torna-se incapaz de admitir para si mesmo ou para os demais o que fez. Ou por que o fez.

     

Certamente, se Raskolnikov tivesse melhores condições materiais não estaria tão vulnerável ao crime. Por outro lado, é inegável que dívidas não são sinônimo de assassinato, e ele mesmo afirma que não matou por dinheiro:

               

“Se fosse só a necessidade que me levasse ao crime eu seria agora feliz.”

 “[…] quem confiou a mim a vida ou a morte dos outros?”

    

Ele planejou e executou um crime, mesmo havendo ainda vários outros caminhos possíveis. Introvertido e idealista, criou até uma justificativa moral para o ato. Acreditava que as grandes figuras da humanidade faziam história ao romperem com a ordem estabelecida, em oposição ao homem médio que seguia as leis; Desejava não ser um homem comum, tomado por ressentimento e inflado por um complexo inconsciente de poder, julgou ter o direito de matar. E logo percebeu que se enganou, só que tarde demais:

              

“E por ventura matei a velha? Não, a mim mesmo é que matei e perdi-me sem remédio…Quanto a velha, foi morta pelo diabo, não por mim…”

      

Seria ele então merecedor da morte ou da prisão perpétua? Mesmo tendo cometido o crime num momento de vulnerabilidade e com arrependimento logo após?

     

À luz da psicologia analítica, bem e mal são conceitos relativos, dependem de quem julga e do ponto de vista adotado. Será possível fazer um julgamento objetivo sobre o outro e suas atitudes e, com base nisso, determinar seu destino? Classificá-lo como mau, condenável?


Em O Bem e o Mal na Psicologia Analítica, Jung escreve:

                 

“Quando se fala do bem e do mal, trata-se daquilo que alguém entende por bom ou mau. […] Bem e mal são princípios em si, […] e um princípio existe muito antes de nós e se estende muito além de nós, […] são um fato cuja natureza mais profunda nós realmente desconhecemos.”


Apesar de estarmos nos referindo a acontecimentos concretos é difícil ter uma visão definitiva sobre bem e mal, porque sempre se olha a partir de um ponto de vista subjetivo. Nunca se tem o panorama completo quando se trata do outro.


Talvez o maior perigo e aquele que está ao nosso alcance, seja o mal que negamos em nós mesmos. Aquilo que fingimos não ver, ou disfarçamos com outro nome mais bonito acaba por nos passar a rasteira, como a metáfora da mão direita que constrói e da esquerda que desfaz. 


Enquanto sociedade, criamos leis e delegamos ao Estado a função de julgar e punir certos atos. E em Crime e Castigo não é diferente. Mas a reflexão que fica é sobre a facilidade com que, como humanidade, podemos ser capazes de construir justificativas racionais e até morais para coisas objetivamente destrutivas. Enquanto indivíduos, projetamos o mal no outro e assumimos o papel de passíveis de condená-lo, mas ao fazê-lo estamos no fundo negando o que há de destrutivo em nós e permitindo, por meio de nossa inconsciência, que justamente isso se manifeste de forma autônoma, como fez Raskolnikov ao por conta própria julgar e condenar a velha senhora.


“Só a inconsciência desconhece o bem e o mal”

 Aion Vol 9/2  [97]




 
 
 

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